Painéis reuniram especialistas para discutir o papel estratégico da comunicação governamental, a gestão de crises e os impactos da inteligência artificial na vida pública.
A tarde do primeiro dia do 9º Fórum Nacional das Secretarias Estaduais de Comunicação ampliou o debate sobre os desafios atuais da comunicação pública no país. Em três painéis consecutivos, especialistas e gestores defenderam a profissionalização da área, o investimento contínuo em capacitação e o papel estratégico da comunicação em momentos críticos de governo.
A programação foi aberta com a palestra do presidente da ABC Pública, Jorge Duarte, que apresentou pesquisas recentes sobre os principais obstáculos enfrentados por equipes de comunicação no setor público. Apesar do avanço acadêmico e institucional do campo, ainda persistem dificuldades estruturais para que a comunicação seja reconhecida como área estratégica dentro da administração pública.
“Muitas vezes a comunicação ainda é vista como área de execução, chamada apenas para resolver problemas do dia a dia, quando deveria participar da formulação estratégica”, afirmou.
Para enfrentar essas fragilidades, Duarte defendeu a criação de programas permanentes de capacitação nas instituições públicas.
“Não estamos falando de um treinamento eventual. O ideal é um programa contínuo de formação, com palestras, troca de experiências e debates sobre problemas concretos. Isso qualifica as equipes e melhora as entregas. Não é um treinamento político, mas uma formação voltada ao Estado, às boas práticas e ao interesse do cidadão”, disse.
Gestão de crises e disputa de narrativas
Na sequência, o secretário estadual de Comunicação do Rio de Janeiro, Igor Marques, apresentou um estudo de caso sobre a gestão da comunicação durante a megaoperação policial realizada em outubro de 2025 no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão. O episódio, que teve forte repercussão nacional e internacional, tornou-se, segundo o secretário, um marco na estratégia de comunicação do governo fluminense.
Um dos elementos centrais da estratégia foi colocar o governador como principal porta-voz da operação desde as primeiras horas, algo incomum em ações policiais desse tipo. “O governador é a maior força de comunicação que um governo possui. Em momentos de crise, a população quer ouvir diretamente do seu líder o que está acontecendo”, afirmou.
A operação mobilizou mais de 2.500 policiais e exigiu intensa coordenação comunicacional. As equipes começaram a monitorar redes sociais ainda na noite anterior, reunindo informações e imagens para alimentar a comunicação oficial em tempo real. De acordo com o secretário, um dos maiores desafios foi lidar com o impacto imediato de um número que rapidamente passou a dominar o debate público: 122 mortos.
“Como administrar uma crise cujo elemento central é um número absoluto? Sabíamos que precisávamos contar a história a partir desse dado”, explicou. Para Igor Marques, a experiência evidenciou que a comunicação se tornou peça central na gestão de crises de segurança pública.
“Quem trabalha com operações policiais sabe que a disputa de narrativa acontece o tempo todo, nas redes sociais, na imprensa e no debate político. Se o governo não estiver preparado para isso, perde a batalha rapidamente”, concluiu.
Inteligência artificial e impactos na comunicação pública
Encerrando a programação da tarde, a especialista em inteligência artificial Carmem Domingues apresentou a palestra “Os Impactos Sociais da Inteligência Artificial – Entre a Tecnologia e a Humanidade”, ampliando o debate para os efeitos das novas tecnologias na vida pública e na comunicação contemporânea.
Durante a apresentação, ela abordou a importância política da inteligência artificial, os desafios globais para sua regulação e lições da experiência da Casa Branca no debate sobre políticas públicas para o setor. Segundo a especialista, embora sistemas de IA não “pensem” como humanos, operam a partir de grandes volumes de dados e têm capacidade crescente de inferir perfis, influenciar comportamentos e moldar decisões.
Carmem também alertou para mudanças no modelo das plataformas digitais, que passam da monetização da atenção para a monetização das intenções, com sistemas capazes de prever preferências e comportamentos dos usuários. “O desafio não é abandonar a inteligência artificial, mas usá-la sem abrir mão do pensamento crítico”, pontuou.
Ao final da apresentação, a especialista destacou que a tecnologia pode trazer benefícios relevantes, mas exige uso consciente e reflexão sobre seus impactos na cognição social, na vida pública e nas relações humanas.
Comunicação pública como função estratégica
Os três painéis reforçaram uma avaliação recorrente entre os participantes do fórum. Em um ambiente de crescente desconfiança social, avanço tecnológico e intensa disputa de narrativas, a comunicação pública deixou de ser apenas uma função operacional para se tornar um elemento estratégico da gestão governamental.
A programação do 9º Fórum Nacional das Secretarias Estaduais de Comunicação continua nesta terça-feira (10) com novos debates voltados aos desafios da comunicação governamental. Entre os temas previstos estão protocolos de comunicação para situações de desastres climáticos e a publicidade pública em ano eleitoral.



